Suicídio via internetClarisse Werneck
A internet revolucionou o mundo. Através da rede as pessoas mudaram a forma de se relacionar, de trabalhar, de se informar e até de viver. Hoje é possível fazer compras, transações bancárias, receber notícias poucos minutos depois que elas acontecem, conversar em tempo real com uma pessoa que mora do outro lado do mundo, trocar fotos, entre muitas outras utilidades oferecidas pelo mundo virtual. Mas a rede de computadores também tem mostrado o lado cruel e nefasto da sociedade: sites que fazem apologia ao crime, à pedofilia, ao terrorismo (inclusive dicas de como construir bombas), ao racismo, entre outras, e que podem ser facilmente acessados. Atualmente, o mundo virtual começou a acompanhar um novo fenômeno: os suicídios online. Jovens de várias partes do planeta anunciam seu suicídio pela web, discutem com os internautas métodos eficazes e se matam no dia e hora combinados para que “seus amigos virtuais” possam acompanhar todo o processo em tempo real. Alguns chegam a transmitir o momento de sua morte em i magens através de uma webcam.
Blogs, fóruns de bate-papo, comunidades nos sites de relacionamento, entre outros divulgam técnicas de suicídio, exemplares de cartas, bilhetes dos próprios suicidas, planos de suicídio, fotos de mortos e imagens registradas por webcam. Esses sites chegam a ter um acesso de cerca de 900 pessoas por mês.
O fenômeno teve início no Japão, país que se esforça em combater uma onda macabra que tomou conta dos jovens do lugar: as pessoas estabelecem pactos de suicídio coletivos através da internet. E o número de mortes em grupo vem aumentando: foram 34 em 2003, 55 em 2004 e 91 no ano passado. O suicídio é hoje um dos principais temas debatidos nos sites japoneses. Jovens recebem incentivo de internautas.
Além do Japão, casos de suicídio online têm acontecido em outros lugares do mundo. No ano passado, a adolescente Carina Stepherson, de 17 anos, se enforcou em uma árvore perto de sua casa em Branton, norte da Inglaterra. A mãe da menina acredita que sua filha estaria viva se não tivesse acessado sites que glorificam o ato de matar-se. A jovem visitou páginas sobre suicídio, discutiu, pediu dicas para outros internautas e fez pesquisas sobre o assunto.
Assim como Carina, o jovem Ciro Eugenio Milani, de 26 anos, suicidou-se na localidade de Paderno D’Adda, na Itália. Ele mantinha o blog “Antes de Partir”, um dos mais visitados de seu país e, durante três meses, anunciou, através da rede, seu suicídio, dizendo, inclusive, o dia em que pularia de grande altura (ele se matou antes da data anunciada). Ciro chegou a pedir dicas para outros internautas sobre como resolver problemas que apareciam enquanto ele planejava o ato e foi prontamente atendido.
No Brasil aconteceu um suicídio anunciado internacionalmente através da rede. Em julho deste ano, um adolescente de 16 anos, morador do bairro de São Geraldo, em Porto Alegre (RS), compartilhou o momento de sua morte em um fórum virtual com internautas de outras partes do mundo. Ele participava de chats de discussão sobre suicídio, onde conheceu pessoas que o incentivaram a matar-se. Os participantes deram dicas sobre a forma mais eficiente e acompanharam, em tempo real, a morte do garoto. Durante o processo ele ainda chegou a contatar os membros do fórum pedindo ajuda para que seu plano fosse bem sucedido. As pessoas que responderam ao seu apelo ensinaram-no como proceder e apoiaram sua decisão.
Mortes filmadas por webcam
Existem ainda aqueles que filmam o momento de sua morte com uma webcam. Uma estudante sul-coreana, que estuda no Reino Unido, presenciou, através da internet, a morte de seu namorado, que morava na cidade sul-coreana de Suwon. A jovem Yang, 27 anos, estava discutindo pela web com o namorado Kim, também de 27 anos. De repente, ele se levantou e se enforcou com um cinto de coro na tubulação de gás do teto de seu apartamento. Tudo foi filmado pela webcam e transmitido à moça em tempo real.
No início do ano, um norte-americano transmitiu seu suicídio na internet para integrantes de um fórum de um site de games da Bulgária. Mitchell S., de 21 anos, ingeriu uma grande quantidade de pílulas e líquido anticongelante de motores na frente de sua webcam. Durante seis horas ele falou sobre o efeito das substâncias que tomara e saiu do alcance da câmera por diversas vezes, mas os outros membros do fórum acharam que tudo não passava de uma brincadeira. O garoto chegou a ser levado para o hospital, mas não sobreviveu.
fonte: http://www.folhauniversal.com.br